A SIMULTANEIDADE DE UMA ESCRITA DE RECICLAGEM

 

Dina Maria FRAGOSO - UFC

 

 

Desde os primeiros anos da descoberta do Brasil, textos foram escritos para conformar a terra e o povo brasileiros. No entender de Silviano Santiago, serviram de farol para que, “com a sua ajuda e luz, se aclarassem tanto a região quanto os habitantes, no tocante aos valores sociais, políticos e econômicos” (SANTIAGO, 1982:89). Dentre esses textos, aqueles produzidos nas décadas de 70 e 80 despertam interesse, por iluminarem um momento histórico de transição que se inicia nos anos 60.

Com o início dos anos 70, o desenvolvimento do mercado editorial reflete a política econômica do regime autoritário. Os militares, empenhados na construção de um Brasil grande, buscam uma articulação entre o emergente capitalismo brasileiro e o mercado mundial. A importação de novas técnicas e esquemas de organização produtiva irão efetuar o aparecimento de um regime de criação cultural cada vez mais voltado para o mercado e o consumo. Nesse sentido, a atuação do Regime Militar se deu com graus diversos de intervenção. De um lado foi promotor da evolução institucionalizada do setor de produção artística e intelectual, por outro lado, constituiu-se no elemento repressor da veiculação de mensagens de caráter político.

Artistas e intelectuais respondem ao regime do AI – 5, definindo suas posições pessoais, as formas estéticas e a linguagem das suas produções. No ensaio “Repressão e censura no campo das artes na década de 70”, de 1979, Silviano Santiago analisa o período, a censura e suas posteriores conseqüências sobre a produção artística. O crítico argumenta que a censura não teria afetado quantitativamente a publicação de livros literários, mas forçado o artista a optar por formas e modos capazes de superar as limitações do contexto.

 

Tomando como exemplo apenas a literatura, pode-se perceber que houve dois tipos de livros que tiveram êxito durante o período: textos que se filiam ao realismo dito mágico e que através de um discurso metafórico e de lógica onírica, pretendem, crítica e mascaradamente, dramatizar situações passíveis de censura, e os romances-reportagem, cuja intenção fundamental é de desficcionalizar o texto literário e com isso influir, com contundência, no processo de revelação do real. (SANTIAGO, 1982:52)

 

Com a chegada do decênio de 80, a literatura brasileira sofre outras transformações marcantes, que se afigurarão com a saída do aparelho repressor das redações dos jornais. As narrativas fantásticas e os romances-reportagem são progressivamente descartados, para que se acolham os romances policiais e os textos da “literatura de fundação”. O primeiro define-se por um “elogio detetivesco do ideário ‘liberal’ da atividade judiciário-policial”.(SÜSSEKIND,1993:240) Os romances de contornos épicos procuram estabelecer no povo brasileiro um caráter imutável e coeso, dispensado de quaisquer contradições. Ao lado dessas questões, a literatura dos anos 80 vai procurar identificar-se com os padrões do best-seller contemporâneo. Agora os escritores passam a se preocupar com a demanda do mercado e com a sua profissionalização.

Se o gênero policial e as narrativas épicas funcionam como soluções de continuidade na ficção dos anos 80, “há certas descontinuidades, certas armadilhas para esse mesmo ideário”. (SÜSSEKIND, 1993:240) É o caso das obras que, em vez de procurarem impor uma interpretação unívoca, apresentam um rompimento radical no que se refere à pretensão de uma totalidade ética e a de uma linearidade narrativa.

Em relação ao primeiro ponto, nessas obras encontra-se o mundo fragmentado onde não se veicula a probalidade de uma conformação. Suas personagens sofrem ou de total desorientação, ou de alguma anormalidade, enfatizadas por relações conflituosas; além do mais, personificam a desordem, a violência física e moral e a destruição das formas de convivência social. É o que ocorre com o romance de Ignácio de Loyola Brandão, Zero, no qual o método de composição e a sua concepção de engajamento social levam o autor à pesquisa de novos recursos formais. A montagem de Zero, por exemplo, propõe uma simultaneidade de planos, nos quais o recurso da colagem e o emprego dos materiais reciclados denunciam a formulação de uma linguagem rebelde a certas convenções jornalísticas e aos cânones de uma literatura elitista.

O romance Zero, de Ignácio de Loyola Brandão, insere-se no conjunto das obras literárias brasileiras que codifica uma perspectiva, permitindo compreender o novo processo social em andamento, voltado para a reconquista dos direitos de cidadania. A narrativa ignaciana em Zero engendra situações que estilizam o Brasil, na época da ditadura militar, recorrendo a um discurso satírico, dramático, cruel e sobretudo crítico. O romancista leva o leitor em uma trajetória, na qual as aspectos relevantes daquela época poderão ser mostrados. Para tanto, os traços do quotidiano se transformam em pequenas metáforas, prontas a compor a alegoria de um Brasil aterrorizante.

Ignácio Loyola Brandão atrela sua história pessoal à produção de suas narrativas ficcionais. Como escritor perseguido pelos órgãos de censura dos governos militares, ele vivenciou as diferentes formas de violência deflagradas pela ditadura. Mesmo assim, assumiu uma posição singular em relação a alguns ficcionistas brasileiros, representantes do protesto social urbano, e retratou e denunciou essas arbitrariedades. O próprio autor do polêmico Zero depõe:

 

Os anos passados em Última Hora, jornal de centro-esquerda, me deixaram em contato com a chaga viva da realidade paulistana; e brasileira, portanto. Vi de perto grandes problemas. Convivi com trabalhadores, cobri greves, choques com a polícia , levantei problemas de bairros, percorria os hospitais, as delegacias, os reconhecimentos de menores, as repartições públicas, etc. Fuçava, conversava, entrevistava , lia. Então percebi que tudo o que estava escrevendo devia ter um fim maior. Era preciso retratar uma realidade. Denunciar um sistema que oprimia o homem. Defender esse homem das injustiças, pedir para ele um mundo melhor. (van Steen, 1981:48)

 

Essa prática do jornalismo deu ao romancista o acesso à “chaga viva” da realidade brasileira de então. As matérias que não chegavam ao público leitor, por interferência da censura na imprensa, faziam parte de um quotidiano brutal da micro-história das delegacias, dos hospitais, das ruas, dos sindicados e das repartições públicas. A consciência de que o material histórico, sobretudo a informação circunstancial e efêmera, devesse transcender os objetivos jornalísticos leva o escritor a pensar numa forma discursiva, calcada na vontade de opor-se às injustiças e aos crimes contra os direitos do homem. É nesse sentido que a resistência de sua escrita literária afronta as organizações nacionais que, subsidiadas ou não por organismos estrangeiros, exercem sua força reprimindo as liberdades individuais.

O tratamento que Ignácio de Loyola Brandão dispensa a seus romances não se restringe a opor ficcionalidade literária ao mundo fictício que os militares de então impunham à gente brasileira. O ficcionista em estudo apropria-se da historicidade dos eventos, recicla o que recolhe ou cata como dejeto social, para depois articular um universo ilusório que impõe ao leitor suas leis de construção. Assim, as histórias ignacianas não espelham a realidade, nem desvendam o que foi sonegado. Pelo contrário, as tramas enredam possibilidades de reflexão sobre os acontecimentos, de pôr em questão o que a nós se oferece como realidade evidente.

Em Zero, o romancista constrói, por meio de suas personagens e pelo contexto em que se desenvolvem as ações, um Brasil de forma fantasista e metafórica. É através da trajetória de José, um exterminador de ratos transformado em um terrorista urbano, que Loyola Brandão nos introduz nos porões da ditadura militar. Nesse romance, o autor mais uma vez tematiza a questão da repressão, fazendo alusões às sessões de interrogatórios em câmaras de tortura, que, durante aqueles anos de arbítrio e de insegurança, dizimaram dezenas de militantes e quadros de dirigentes da oposição clandestina:

 

Depoimento de Carlos Lopes

ele estava na mesma cela, e me contava. Contava , só no começo. Depois, comeu um pedaço da língua. Ele me dizia: os choques doem no começo. Eles puxam os músculos do corpo inteiro. Depois, os músculos se acostumam. A gente, só tem que agüentar e não ficar louco, antes que o corpo se habitue. (...) (p.255)

 

Durante os governos de linha dura, proliferavam as perseguições a intelectuais, professores e estudantes, obrigando-os a uma resistência discreta. Docentes e pesquisadores de reconhecimento internacional sofreram com as delações e as tramas armadas pelos colaboradores do regime. O terror que invadiu o meio acadêmico transpira nas linhas de Zero e torna emblemático o trecho transcrito a seguir:

 

Depois de ter sua biblioteca, inteiramente confiscada e queimada pelo Governo 1, o sociólogo e pesquisador das origens do subdesenvolvimento nacional, Carlos Antunes, aceitou o convite de Yale para lecionar na famosa Universidade Norte-Americana. Deve embarcar dentro de 10 dias, se os advogados liberarem o seu passaporte. (p.17)

 

Para compor Zero, sua obra mais conhecida e polêmica, o autor coleta material para a reciclagem estética em folhetos, anúncios, propagandas de eletrodoméstico, receitas de cozinha, rótulos de vidros, letras de música, filmes. Essa referencialidade externa expõe seus fragmentos para a reconstrução romanesca, permitindo ao texto iluminar, na síntese que realiza, os valores sociais, políticos, econômicos e culturais do momento histórico que ele interpreta. O arranjo e a ressignificação do material coletado diferenciam o discurso ficcional literário e tornam manifesto seu caráter de construção. Assim compreendida, a transformação da realidade histórica em matéria romanceada não isola o texto de suas ligações possíveis com a realidade, até mesmo porque a recorrência dos temas, comuns à ficção e à vida concreta, não desaparece. Ao se construir, a realidade estética pode interrogar ( ou simplesmente reforçar) os mecanismos de representação da realidade objetiva e mesmo pô-los em questão.

No trecho em destaque, o narrador faz referência ao filme “Viva Zapata” e rememora nomes de artistas de motoriedade daquela época.

 

O Mexicano jurava que seu pai e seu avô tinham lutado com Pancho Villa e que havia um tio seu no grupo de Emiliano Zapata / ah, eu vi a fita com o Marlon Brando e a Jean Peters(...) E o Mexicano concordou e falaram de Brigitte, de Raquel Welch, de Maria Félix e Libertad Lamarque, de Ninon Sevilha e Maria Antonieta Pons (...) (p. 254)

 

É, indiscutivelmente, em Zero que o processo criativo de Ignácio de Loyola Brandão ganha a mais complexa expressividade. A linguagem do escritor é rica em imagens, símbolos, metáforas e as infrações, do ponto de vista gramatical, se tornam deliberadas. Neste romance, Ignácio quebra propositalmente a sintaxe e utiliza-se de uma pontuação que contraria o padrão normativo. Por exemplo: os usos de barras, substituindo outros sinais gráficos, de pontos e de pontos de interrogação no início de parágrafos e linhas.

A experimentação gráfica, os diagramas pseudocientíficos e a freqüente utilização de onomatopéias dificultam o fluxo da leitura, levando o leitor à reflexão:

 

Tchem, tchem, TCHEM

pam

Mesmo com o barulho, ela ouvia os gritos.

Xu, xi, fuuuuu

Xu, xi, fuuuuu

E as palmas. Era como se ela estivesse perto de um auditório. Palmas e gritos.

Pam, Pam, Pam, PAm, PAm, PAM, PAM, PAM.

xiquexi, xiquexi, xiquexi, xiquexi(...) (p. 247)

 

Em Zero, especificamente, o caráter construtivo da narrativa recorre a um “estilo pop-concreto”. Loyola “evita quase sempre a narrativa linear, preferindo esmiuçar a ação em pequenos itens ou quase capítulos, sempre intemporais ligados por recursos que vão de ‘slogans’ publicitários e ‘grafitti’ até letras de músicas e expressões de gírias(...)” (SILVERMAN, 1978:211)

 

Pensamento do dia

Quem não é o maior,

Tem que ser o melhor:

Atlantic, Serviço Nota 10. (p. 205)

 

Melhoral, melhoral

é melhor e não faz mal (p. 224)

 

Quanto à escolha de vocábulos, o apelo à expressividade não sofre censura, pois abriga o chulo e o elevado com força e intensidade incomuns. A morte e o sexo fermentam os componentes temáticos que tensionam a trama, numa espécie de iconoclastia em que Deus é contrastado com fezes. No final do romance, a tortura violenta, furiosa e enlouquecedora como meio de desumanização em sua forma mais básica e de destruição da individualidade do homem, explode numa série de depoimentos estarrecedores que dilaceram os padrões conservadores da consciência autoral. ( SILVERMAN, op. cit: 220)

À desestruturação ética corresponde a desestruturação técnica. A linearidade da narrativa dá lugar à construção desordenada e descontínua sem um ponto de vista definido. Por conseguinte, esse romance coloca em questão a identidade do narrador- protagonista, “fazendo com que a fluidez e a incerteza, sejam a própria natureza do mundo narrado”. (DACANAL,1995:65)

Ainda com relação ao método de criação dos textos ficcionais realizados por Ignácio de Loyola Brandão, a busca pela simultaneidade dos discursos se apresenta como uma dificuldade a ser transposta. A interlocução dos planos espaciais e a significação a eles associados afrontam a linearidade da narrativa escrita.

Analisando as dificuldades de se constituir a simultaneidade em construções discursivas, obstáculos enfrentados por historiadores e ficcionistas, Leão de Alencar Jr. enfatiza:

 

A escrita, por mais livre que seja a ordenação, se nega à orquestração simultânea das vozes e dos instrumentos. É nesse sentido que a ópera, e como ela a música, aproxima o espectador da simultaneidade do real (...). Na linguagem cinematográfica, os filmes de catástrofe recorrem, em muitas cenas, à simultaneidade das ações e dos movimentos. A coletividade ganha então a força dramática da crise e da desordem. A impossibilidade de os fenômenos se reduzirem à compreensão e à explicação verbais, de serem por elas capturados, se mostra com uma evidência contundente. Rompida a unidade consensual da realidade, proliferam os discursos em forma de notícias, opiniões, comentários. Os limites se rompem e os choques se tornam simultâneos e imprevisíveis”. (ALENCAR JR, 1999: 199)

 

Desafiando essas barreiras, Loyola pesquisa novos recursos formais, associando à experimentação literária um projeto de definição política, que lhe permita refletir sobre a história. É o que acontece no romance Zero , cuja montagem recorre, logo ao início, a divisão ao meio da página, dispondo de forma paralela dois discursos. A comparação simultânea entre as características pessoais do protagonista e as características do planeta Terra reforça a vontade do autor, não só em tornar José infinitesimal, mas em problematizar graficamente a questão da simultaneidade dos diferentes planos discursivos.

Em outras passagens do livro, o autor tenta romper a seqüenciação da narrativa e concretizar a simultaneidade dos acontecimentos narrados, destacando em retângulo outras mensagens paralelas. É o que ocorre na página 22, onde as ações do protagonista, passadas nos arredores de sua casa coexistm com acontecimentos ocorridos a quatrocentos quilômetros dali.

A utilização do processo da reciclagem e de recursos que exprimem a simultaneidade são marcas de uma escrita ficcional que não se restringe à busca ornamental das formas. A inovação do romance Zero responde a um quadro político e social de mudanças e contribui para que o leitor apreenda o quadro de valores que Ignácio de Loyola Brandão ilumina com seu romance.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

ALENCAR JÚNIOR, José Leão de. A discursividade da história em A jangada de pedra. In: Culturas, contextos e contemporaneidade. Anais ABRALIC. Alagoas-Salvador: EDUFBA, 1999. p. 195-200.

BRANDÃO, Ignácio de Loyola. Zero. 7 ed. Rio de Janeiro: CODECRI, 1980. 285 p. Coleção Edições do Pasquim. v. 59.

DACANAL, José Hildebrando. Era uma vez a literatura... Porto Alegre: UFRGS, 1995. 78 p. Série Síntese Universitária. v. 44.

SANTIAGO, Silviano. Liderança e hierarquia em Alencar. In: Vale quanto pesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. p. 89-117. Coleção Literatura e Teoria Literária. v. 44.

_____. Repressão e censura no campo das artes na década de 70. In: Vale quanto pesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. p. 47-57. Coleção Literatura e Teoria Literária. v. 44.

SILVERMAN, Malcolm. A ficção de Ignácio de Loyola Brandão. In: Moderna ficção brasileira. Tradução: João Guilherme Link. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. p. 209-227.

STEEN, Edla van. Ignácio de Loyola Brandão. In: Viver e escrever. Porto Alegre: L & PM, 1981. p. 39-58. v. 1.

SÜSSEKIND, Flora. Anos 70, anos 80. In: Papéis colados. Rio de Janeiro: UFRJ, 1993. p. 239-269.